JB Xavier

Uma viagem ao mundo mágico das artes!  A journey into the magical world of  the arts!

Textos


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Um texto impressionantemente ousado, forte, profundo e perturbador, escrito pelo autor, hoje com 37 anos, quando tinha 17.  
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ANSEIOS
Jannerson Xavier

Cansei. Se não for de tudo, é de, pelo menos, grande parte do que vivo. Cansei, como ponto de partida, da apatia. Apatia essa que se alia ao ócio. Cansei de viver na sombra do grande espectro mórbido que me esmaga sob seu peso. Cansei de estar tão firmemente soldado ao chão que não olho para outro lado senão para cima. Cansei de viver a vida no meio da encruzilhada e ver os outros passarem. Passarem e baterem. Quero estraçalhar-me com qualquer pessoa cuja trilha venha a coincidir com a minha, seja lá quem for. Quero ver o semáforo ficar amarelo e acelerar ao invés de frear. Quero sentir o farol vermelho, que, pela proximidade já não pode ser mais visto, e acelerar mais ainda, sobrando-me nada a fazer a não ser torcer para que ninguém colida comigo, mas tendo, bem no fundo, a esperança de que alguém venha a fazê-lo. Quero lançar-me à sorte. Girar a roleta e lançar-me em seu meio, rodopiando numa trajetória caótica sujeito apenas à gravidade e ao atrito. Quero sair da inércia, seja ela estática ou dinâmica. Quero me mover com minhas pernas de um lado pro outro, sacolejando a alma moribunda que ainda me habita.

Cansei da rotina, de ciclos - Década, ano, estação, mês, semana, dia, manhã, noite, hora, minuto, segundo. Já não bastasse o tempo ser uma infinidade de círculos concêntricos que se orbitam, minha vida ainda é um imenso pêndulo rotatório. Cansei de círculos. Que se abra o sinal do infinito e trace no espaço um “daqui até lá” e não um “até lá e de volta”. Cansei de mesmos lugares. Cansei de trilha de feijões e do caminho de retorno. Quero, além de não saber para onde vou, não saber de onde vim, mas saber onde estou. Aqui. Cansei do lá, do depois. Quero o aqui e o agora, tão bem definidos quanto meu corpo de carne e osso e tudo aquilo que o cerca e que interage com ele. Cansei das faixas de grama amassada. Caminhos ditados pelo costume e pela repetição e obedecidos tão irracionalmente como foram feitos. Cansei da objetividade, do menor caminho, da linha reta. Do extermínio do espaço em função do tempo. Quero andar em círculos em campo aberto, fazer o trajeto mais longo simplesmente pelo trajeto em si. Cansei de fins sem meios. Quero fins com meios e, acima de tudo, meios sem fins. Quero fazer por fazer, e não por ter feito.

Cansei de construir meu futuro, o que é o mesmo que construir meu passado. Cansei de projeções e de expectativas. Acima de tudo expectativas parentais. Se meu futuro não me compete, quanto mais a outros. Cansei do útero infinito, da forca umbilical. Cansei da gestação pós-natal que, se não for abortada, só parirá na morte. Cansei de ser caracol. Trocar a dinamicidade da vida pela segurança de carregar a casa nas costas. Cansei de sentir o aroma adocicado da segurança. Quero sorver o fel proveniente das podridões à beira do caminho. Cansei do toque do algodão. Quero sentir a aspereza, a rispidez. Quero escoriações. Quero a dor. Chega de auto-piedade, o que eu desejo é o masoquismo anímico. Enterrar a estaca no meu peito e me alimentar do meu próprio sangue.

Cansei, em síntese, do “isto”. Dessa situação atual, em quase todos os aspectos. Quero mudança. Mas não uma mudança superficial como preto pro branco, ou agudo para grave. Quero mais uma mudança total de sentido como de cor para som, de preto para agudo. Ainda assim isso é insuficiente. Quero muito mais. Quero outros cinco sentidos, ou nenhum. Cansei do horizonte longínquo e da morte à vista. uero caminhar na beira do penhasco, sentindo a vertigem de olhar além do horizonte, sabendo que a morte mora lá embaixo, mas tendo o alívio de não vê-la. Cansado da vida efêmera inscrita no tempo infinito. Quero, finalmente, a vida infinita inscrita no breve agora.

 

 

YEARNINGS

Jannerson Xavier

 

I'm tired. If not of everything, then of at least a great part of what I live. Tired, as a starting point, of apathy. An apathy that allies itself with idleness.

 

I'm tired of living in the shadow of the great morbid specter that crushes me under its weight. Tired of being so firmly welded to the ground that I look nowhere else but upward. Tired of living life in the middle of the crossroads and watching others pass by. Pass by and collide. I want to shatter myself against anyone whose path might coincide with mine, whoever they may be. I want to see the traffic light turn yellow and accelerate instead of braking. I want to feel the red headlight, which, due to proximity, can no longer be seen, and accelerate even more, leaving me nothing to do but hope that no one crashes into me, but deep down, harboring the hope that someone will do so. I want to throw myself to chance. Spin the roulette and launch myself into its midst, spinning in a chaotic trajectory subject only to gravity and friction. I want to break free from inertia, be it static or dynamic. I want to move with my legs from one side to another, shaking the moribund soul that still inhabits me.

 

I'm tired of routine, of cycles - Decade, year, season, month, week, day, morning, night, hour, minute, second. As if time weren't already an infinity of concentric circles orbiting each other, my life is still an immense rotary pendulum. I'm tired of circles. Let the sign of infinity open and trace in space a "from here to there" and not an "up to there and back". I'm tired of the same places. Tired of bean trail paths and return routes. I want, beyond not knowing where I'm going, to not know where I came from, but to know where I am. Here. Tired of there, of later. I want the here and now, as well-defined as my flesh and bone body and everything that surrounds it and interacts with it. I'm tired of trampled grass strips. Paths dictated by custom and repetition, obeyed as irrationally as they were made. I'm tired of objectivity, of the shortest path, of the straight line. Of the extermination of space in function of time. I want to walk in circles in an open field, take the longest route simply for the route itself. I'm tired of ends without means. I want ends with means and, above all, means without ends. I want to do for the sake of doing, and not for having done.

 

I'm tired of building my future, which is the same as building my past. Tired of projections and expectations. Above all, parental expectations. If my future is not my concern, how much less others'. I'm tired of the infinite uterus, of the umbilical noose. Tired of the post-natal gestation that, if not aborted, will only be born in death. Tired of being a snail. Trading life's dynamism for the security of carrying one's house on one's back. Tired of feeling the sweet aroma of security. I want to gulp down the bile from the rottenness at the roadside. Tired of cotton's touch. I want to feel the roughness, the harshness. I want abrasions. I want pain. Enough self-pity, what I desire is animic masochism. Driving the stake into my chest and feeding on my own blood.

 

Tired, in summary, of "this". Of this current situation, in almost every aspect. I want change. But not a superficial change like black to white, or sharp to grave. I want more of a total change of sense, like from color to sound, from black to sharp. Even that is insufficient. I want much more. I want five other senses, or none. Tired of the distant horizon and death in sight. I want to walk on the cliff's edge, feeling the vertigo of looking beyond the horizon, knowing that death lives down there, but having the relief of not seeing it. Tired of ephemeral life inscribed in infinite time. I want, finally, infinite life inscribed in the brief now.



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JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 08/08/2011
Alterado em 26/02/2025


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