
VOLTANDO AO PORTO DE ORIGEM
JB Xavier
Um presente a mim mesmo
Pelo ano mais feliz de minha vida
A porta da escola se abriu.
Não falo da porta da escola abandonada,
Quase em ruínas,
À R. Gal. Osório, 135,
Junto ao Largo da Carioca,
Em São Francisco do Sul, SC.
Ali, dentro daquelas paredes envelhecidas
Castigadas pelo tempo,
Cursei O 3º ano do curso primário.
Em 1963.
Voltei a visita-la em 2023,
60 anos depois de ter vivido ali
O que foi talvez
O ano mais feliz da minha vida.
Falo da outra escola,
A verdadeira.
Com paredes branquinhas
Tal como me lembro até hoje dela,
Desde meus 9 anos de idade.
Hoje é uma porta de madeira antiga,
arranhada pelo tempo
e pelas mãos de gerações de alunos.
Fiquei olhando para a velha escola,
Cansada pelos maus tratos do tempo,
Vazia e silenciosa.
De repente,
Uma explosão de vozes encheu a rua.
Era o recreio.
Meninos e meninas saíam correndo para a rua,
Como se a liberdade durasse para sempre.
Eu estava parado do outro lado da rua.
Adulto.
Imóvel.
Observando.
E então eu o vi.
Magro, de pernas finas, cabelo revolto.
Nove anos, pleno de alegria infantil,
Corria ladeira abaixo junto com os amigos.
Ele não me viu.
Nem poderia.
Pertencíamos a tempos diferentes.
Mas eu o reconheci imediatamente.
Era eu.
Correu pela rua antiga,
Os mesmos paralelepípedos há dois séculos.
Ele conhecia cada buraco e cada desnível.
Os outros meninos gritavam.
Disputavam corridas.
Empurravam-se sem maldade.
E ele corria com eles.
Passou tão perto de mim
Que tive a impressão de ouvir sua respiração.
Por um segundo quase o chamei.
Quase gritei:
— Aproveita, garoto. Aproveita cada minuto.
Mas me calei.
Crianças não precisam de conselhos dos velhos.
Precisam apenas viver.
E ele vivia.
Descemos a ladeira.
Ele correndo.
Eu caminhando.
Lá embaixo, o Largo da Carioca surgiu.
Eu o segui até o Largo da Capitania.
Todo dia, no recreio, íamos até lá.
O mesmo mar.
A mesma curva da baía.
As mesmas montanhas verdes guardando o horizonte.
E, por um instante impossível, nada havia mudado.
Nem o barquinho fundeado ao largo.
Nem a água.
Nem o vento.
Os barcos balançavam suavemente junto aos trapiches.
Era o cenário que ele via todos os dias.
Era o cenário que eu guardaria na memória
Para sempre.
Perto da água, o menino parou.
Observou os pescadores.
Sempre fazia isso.
Gostava de vê-los tirar os peixes das redes.
Gostava dos barcos.
Gostava das histórias.
Ali começou, sem saber,
A escrever sua própria história,
Muito antes dos livros
Que um dia escreveria,
Muito antes dos quadros
Que um dia pintaria,
Muito antes dos seus desenhos...
Ali começou o escritor,
O pintor,
O Sonhador...
Porque artistas nascem observando.
Depois ele correu novamente.
Sabia para onde estava indo.
Eu também.
A carioca.
A velha fonte de pedra.
A fonte de 1884.
Chegamos juntos.
O menino ajoelhou-se primeiro.
Abriu as mãos.
Bebeu sem cerimônia.
Sem pensar na pureza da água.
Sem pensar em bactérias.
Sem pensar em coisa alguma.
Apenas matou a sede.
Era o que as crianças faziam.
Eu fiquei observando.
Então o tempo vacilou.
Como uma miragem.
E, por um momento, vi outra cena.
O menino desapareceu.
No lugar dele apareceu o homem de cabelos brancos.
Ajoelhado exatamente no mesmo lugar.
Bebendo da mesma água.
Sessenta anos depois.
Então o homem desapareceu.
O menino voltou.
Depois um sumiu.
Depois outro.
Como reflexos na superfície da fonte.
Até que compreendi.
Não eram duas pessoas.
Eram a mesma.
O recreio estava terminando.
Uma professora chamou os alunos.
O grupo começou a subir a ladeira de volta.
O menino levantou-se.
Sacudiu as mãos molhadas.
Preparou-se para correr.
Então algo aconteceu.
Talvez tenha sido apenas imaginação.
Talvez não.
Por um instante ele olhou para trás.
Diretamente para mim.
Não para onde eu estava.
Para mim.
Como se finalmente me enxergasse.
Não sorriu.
Não falou nada.
Apenas ficou olhando.
Então entendi o que aquele olhar dizia.
Não era o menino perguntando quem eu era.
Era ele reconhecendo quem se tornaria.
O escritor.
O pintor.
O desenhista.
O homem que um dia
Voltaria à cidade
Sessenta anos depois.
O sujeito sentimental
que ainda chorava diante da velha escola.
O homem que ainda sabia capar um siri
porque o pai lhe ensinara.
O homem que nunca esqueceu.
Depois ele virou-se.
E correu.
Correu ladeira acima.
Correu para dentro da infância.
Correu para dentro do tempo.
Correu para dentro da memória.
E desapareceu.
Fiquei sozinho diante da escola.
A rua estava silenciosa.
A escola, vazia,
Resistindo,
Contendo dentro de suas paredes
A alegria das infâncias felizes...
Lá embaixo,
A Carioca também resiste
Guardando em suas pedras centenárias
A alegria da garotada...
Uma fonte tão próxima,
E tão distante no Tempo...
O Largo da Capitania lá estava,
Impassível, vazia, tristonha,
Sem a correria infantil
Que lhe dava vida,
Sob o céu de São Francisco do Sul.
Fui embora da cidade ao fim do ano letivo.
Mas naquela visita tardia,
Compreendi...
O menino nunca ficou para trás.
Ele tinha vindo comigo
Durante toda a viagem da vida.
E continuaria vindo,
Enquanto existissem livros.
Enquanto existissem pinturas,
Enquanto existisse desenhos,
Enquanto existissem memórias,
Enquanto houvesse alguém
Para abrir a velha porta de escola
e sair correndo ladeira abaixo
Em direção ao mar.
Porque algumas viagens terminam onde começaram.
E as crianças que fomos nunca vão embora.
* * *