A SENTINELA DO NADA
JB Xavier
Vacilante, encaro o nevoeiro do caminho
Onde paisagens diluídas
Filtram-se entre a luz baça
Vinda de um céu sem cor
Que se recusa a se pôr...
O dia recusa-se a morrer,
Alongando os sonhos
Que insistem em permanecer alertas,
Olhando o que consideram ser
Portas abertas...
Um caminho sem cores
Se dispersa entre árvores que se dissolvem
E rios que se dissipam...
E nessa paisagem que sustém a existência,
Entre o dia que acaba
E a noite que desce,
Encontro-me eu
Despido de mim,
Respirando uma realidade suspeita.
Pulsando em meu peito,
Uma saudade indefinida
Por algo que ainda não perdi...
E respiro essa verdade rarefeita
Que me atinge como realidade deformada,
Que candidamente ao meu lado se deita,
Mantendo-me alerta,
Qual sentinela do nada...
E vou marcando minha passagem
com pegadas vacilantes
Na areia do caminho,
Que vão também se diluindo,
Qual vozes a se perderem num passado
Que vai desaparecendo nos círculos
Da superfície desse lago da imaginação...
Mas é apenas o coração meu,
Que não sabe
O que ainda não perdeu...
Então, o sublime canto
De um tristonho passarinho
Afaga o que um dia
Foi o meu primeiro sonho:
Percorrer essa estrada
Sem jamais sequer ousar imaginar
Que um dia ela me levaria
Neste devaneio,
Por um passeio,
Diluindo-me em direção ao nada...